Caro leitor: Você está tendo acesso em primeira mão a um capítulo de Cowboys do Ciberespaço, livro que quero lançar, mas que na verdade ainda nem terminei de escrever. Boa parte dos capítulos foram escritos, faltando apenas concluir outros.

Como neste ano quero fazer as coisas de um jeito diferente, então darei um gás na escrita. Gostaria de dizer que este capítulo sintetiza muito do que eu era e do que sou hoje. Espero que goste do texto.

1995_

Todo mundo possui uma época na vida que ficou pra sempre na lembrança. Dias ou semanas, que quando lembrados, nos dão aquele nó de saudade na garganta, aquela saliva, sabe? No meu caso, esse sentimento foi em meados de 1995, quando realmente comecei a mexer com computadores pra valer.

Eu morava em uma cidadezinha do Paraná, na época com seus 25 mil habitantes, chamada Jaguariaíva. A Internet havia acabado de chegar comercialmente no país, notícias populavam nos telejornais, mas eu não tinha acesso a ela, muito menos sabia do que se tratava. Na verdade, tinha uma vaguíssima ideia do que era essa tal “rede mundial de computadores” (Ah, como os jornais falaram por muitos anos essas 4 palavras), graças a uma revistinha de informática chamada Byte Brasil que comprei em uma banca de revistas e pelas poucas coisas que aprendi com meu pai sobre tecnologia. Eu pensava: “Como um computador pode se comunicar com outro???

Passei cerca de 1 ano sem mexer com computadores, pois no ano passado (em 1994) comecei um curso de introdução a informática no Senac e até então não sabia como era a sensação de obter conhecimento acessando informações disponíveis em computadores que poderiam estar no outro lado do mundo.

Na escola, eu ficava boa parte do tempo na biblioteca (8ª série), fuçando qualquer livro que tivesse relação com tecnologia, até livros de ficção que tinham os computadores como elemento central da trama eu devorava. Fazia também curso de informática (linguagem Basic) por correspondência (alguém aí lembrou do Instituto Universal Brasileiro?) para tentar absorver todo conhecimento que pudesse, além de cursos presenciais no Senac, como de dBASE III Plus, Programação em Clipper, etc, etc.

Gostava de escrever, ainda mais em exercícios da escola onde a história da cartilha ia até certa altura e eu tinha que dar asas a minha imaginação, dando uma continuação legal para a história, onde muitas vezes faltava espaço para escrever mais…

No início, como eu não tinha um computador (muito menos um celular), eu escrevia códigos de programação em uma folha de papel, imaginando como o programa funcionaria de verdade em um computador, pensava nas telas, menus, etc. Uma sede de conhecimento, aquela ânsia em ver algo tomando forma. O criador e a sua criatura.

A salinha dos computadores_

Um amigo chamado Rogério, apelidado de “Purguinha”, que era fera nos computadores (até hoje é), me disse que em uma sala (um cubículo na verdade) haviam três computadores XT, com tela fósforo verde de 14 polegadas e um deles conectados a uma impressora à disposição dos alunos, mas quase ninguém os utilizava, pois além de somente “pessoas autorizadas” terem acesso a tal salinha, muitos não se interessavam por computadores, já que preferiam jogar voley ou futebol durante as aulas de educação física e recreio. Provavelmente o diretor achava que a sala poderia pegar fogo se qualquer um entrasse lá. Vai entender. 

Mas não éramos qualquer um.

Tivemos autorização para entrar, pois a secretária da escola, que meia-volta entrava na nossa sala, vinha com um problema novo relacionado a computadores. A bola da vez (de novo) é a impressora. Como o Purguinha tinha conhecimento prévio da salinha e já sabia desses problemas recorrentes, me avisou durante o intervalo que entraria lá para consertá-la e perguntou se eu não gostaria de ajudá-lo.

— O diretor me pediu que eu desse uma olhada na impressora da salinha dos computadores. Quer me ajudar? — Ele perguntou.

— Mas é claro! Vamo lá?? — Respondo super entusiasmado.

Obviamente aceitei. Eu era um cara sedento por tecnologia, mesmo que fosse apenas para admirar e quem sabe aprender um pouco mais como funcionavam essas máquinas da década passada. Computadores Pentium DX4 75 Mhz eram top de linha da época e a escola ainda estava engatinhando no quesito tecnologia ou não tinha recursos financeiros para computadores mais modernos. Então eu tinha que me contentar com um computador XT capenga da década de 80.

Para entrar na sala sagrada, precisávamos passar por uma sala de aula, que inclusive tinha um professor falando com uns alunos naquele momento. O professor percebendo nossa presença, fez sinal com a cabeça para que passássemos por ele. Fiz sinal de jóia para alguns colegas desta sala enquanto seguia o Purguinha.

Meus olhos brilharam quando entrei no pequeno espaço. Senti um orgasmo mental ao ver aquelas velharias ali. Computadores antigos, dois com o MS-DOS 5.5 e outro com o Windows 2.0. Frequentemente ficávamos ali digitando como loucos nos teclados barulhentos, copiando arquivos de um disquete para outro, imprimindo manuais de diversos softwares, etc. O tempo voava. Bons tempos.

Éramos uma dupla de “loucos”, renegados, ignorados pela maioria das pessoas, pois quem se interessaria por caras que mexiam com computadores e que ficavam devorando livros de tecnologia na biblioteca da escola?

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Quando eu não estava escrevendo ou pensando em computadores, gostava de ir em um mirante que fica no Parque Linear, ao lado do rio que corta a cidade. Eu olhava para o horizonte, para a água correndo e deixava a mente vagar sem rumo. Às vezes essa viagem esbarrava em algumas pessoas.

Minha mãe, irmã e meu pai.

O que será que aconteceu com eles? Onde foram parar? Juro que quando eu tiver as ferramentas necessárias irei atrás deles!

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Escutas_

Um pouco tempo depois, conhecemos mais dois caras, um magricelo chamado Elizandro, e um mais gordinho chamado Vinícius. A gangue do mal estava formada. Todos tinham algo em comum: a sede por conhecimento e informação.

Vinicius era o cara que tinha o computador mais potente da cidade, um AMD 486 DX4 100 Mhz com HD de 60MB (60 megabytes!!!!!!! Hoje temos discos de TB, terabytes!!!). 

AMD 486 DX4 100 Mhz | Créditos da imagem: https://www.reddit.com/r/Amd/comments/q0pfrx/classic_amd_486_dx4_100mhz/

Nosso grupo de aficionados por tecnologia, ou Hackers, como você deve estar chamando hoje, sempre se reunia na casa de alguém do grupo para estudar ou falar sobre tecnologia. A casa do Purguinha era o local preferido de todos, pois o pai dele, o Sr. Gilberto, mais conhecido como nosso Professor Pardal particular, sempre nos mostrava alguma invenção ou no que estava trabalhando atualmente.

Não era segredo nenhum que o Sr Gilberto adorava radioamadores. Sempre pensava nas inúmeras possibilidades que uma simples caixinha e uma antena poderia trazer. 

O velho cachorro do Purguinha, mais conhecido como Alemão, um basset, sentiu que estávamos nos aproximando e já estava de prontidão nos esperando no portão da casa. Era uma casa simples de madeira com a tinta azul-clara descascando revelando a madeira, mas muito aconchegante. Bons tempos que passamos ali ;-(. Largamos nossas bicicletas em frente e passamos pelo portão, enquanto seguíamos até os fundos da casa, o cachorrinho com o rabinho abanando ia nos acompanhando.

No fundo da casa havia um quartinho de madeira, com uma janela de madeira entreaberta e a única porta do local que estava encostada. Uma música aleatória proveniente de uma rádio AM pôde ser ouvida saindo de lá de dentro. No lado de fora, penduradas na parede do quartinho, viam-se carcaças de TVs velhas, gabinetes de PC, placas-mãe e outras bugigangas.

– Paaaaaai! – Grita o Purguinha.

– Entra filho!

Atrás de uma mesa, cheia das mais variadas peças de computador, com os óculos um pouco caídos levemente abaixo dos olhos, o Sr Gilberto nos olhava.

Numa dessas idas tive um dejavú, uma lembrança de meu pai me mostrando como se conectar à internet BBS via modem discado em uma estação SPARC de 25 Mhz com o SunOS 4.1.1.

O prof Pardal estava conectando ao seu equipamento de radioamador um computador 486 DX2 66 com o Windows 95. Mas aquele sentimento de ver algo fantástico pela primeira vez me marcou profundamente, e me fez lembrar de meu pai.

Logo após alguns minutos, um programa foi aberto no velho 486, e dentro dele, um sinal começou a popular uniformemente. Nas caixas só se ouvia sons de estática, similar àquele chiado de quando a TV está fora de sintonia. Dentro de segundos, meu coração começou a palpitar, comecei a ouvir vozes cortadas em meio a estática conforme o Sr Gilberto girava um botão do equipamento de radioamador, enquanto que no programa de osciloscópio ouvíamos as vozes.

Isso fez meus olhos brilharem. Naquele dia aprendemos a realizar escuta das mais variadas frequências (incluindo aquela que aparece em todo filme de ação…), acessar os computadores de outros operadores de radioamador e ainda utilizar o computador de outro operador para acessar a Internet. De forma bem lenta é claro, pra não dizer quase se arrastando. Mas era o que tínhamos na época. Era a nossa droga, aquilo que fazia nossa adrenalina subir nas alturas. Era o que nos movia.

Me atrevo a dizer que foram esses momentos que fizeram ser quem eu sou hoje…

Eu ainda tenho um pouco daquele brilho nos olhos.

Considerações

Se gostou do post ou se acha interessante ter o livro Cowboys do Ciberespaço futuramente em suas mãos, fale nos comentários, no Facebook, ou no email falecom@canalhacker.com.br, dá uma força aí pra gente heheheh

Hack the Planet!

Créditos da imagem usada na capa do post:

https://www.darkestgoth.com/2018/12/exposing-skeletons-with-reverend-leviathan-the-anix-interview/

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